Ironia

Ahh, mais o que é que foi?!

Que tanto me olha

Sai pra lá que não te quero

Longe.

Olha, vê se não me irrita

Que eu te mato

A saudade, de uma vez só,

Sem nem avisar.

Cuidado, se não te tranco.

Numa mala,

E levo pra viajar.

Sai com essa cara daqui

Que to enjoada de te ver

Tão de vez em quando.

Não me chama…

Muito tarde.

Não insiste…

Tão pouco.

Permaneça a uma distancia

Cautelar, de pelo menos

Bem perto.

Era uma vez a falsidade,

Nos contos da atualidade

Sendo serva da verdade.

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Monólogo do Salário Mínimo

Quanto custa?

Acordar, olhar pro sol, sorrir

Abrir a janela, vento entra e sai

Alegria sem fim

 

Quanto custa?

Café na mesa, que beleza

A certeza de um novo dia

 

Quanto custa?

Sair de casa sem peso na consciência

De que tá custando caro você estar ali

 

Quanto custa?

Saber que alguém, em algum lugar

Está disposto a te defender

Com unhas e dentes e reais

E com mais coisas banais

 

Quando custa?

 

Custa caro saber demais

Custa caro saber que é caro

Que o preto esperto é raro

 

Que a criança sequer desconfia

Mas o pai trabalha noite e dia

Sem ter um segundo de paz

Só pra chegar em casa e ouvir

 

“Papai, que bom que você chegou”

A alma se alegra

O sentido expressa

O pai sente demais.

 

Mas, me diga, meu irmão

Quanto custa?

Dizer que tudo isso é vida

Que é assim que deve ser

Que Deus deixou

Cada um no seu lugar

 

Será que custa dez por cento

Daquilo que se ganhou

Se ganhou com o intento de comprar o pão

O pão que o diabo amaçou

 

Quanto custa?

Acordar de um coma

Induzido pelo plim-plim

Se é só assim que chega, meu irmão

Reis- escravos da escolha

Que não nos foi dada

 

Custa o sorriso no rosto da tua mãe

Fazer aquilo que ela quer

Por que disseram pra ela que assim

Tu não vai sofrer demais

 

Ledo engano, sofrimento

Na boca do pobre sofrido

É viver submetido

Àquele rico metido

Que te olha de cima, convencido

De que ta fazendo demais

 

Na vida, tenho entendido

Que custa caro demais

Apenas viver mais um dia

Sem aquela agonia de saber pra onde vai

Sustentando toda essa gente escrota

Que não tem ideia

De quanto custa sua paz.

 

Ode à Alberto Caeiro

Que direi eu do vento
Se não que venta,
Ou se é frio ou quente
Forte ou fraco?

Por que precisa o vento,
Em sua ventitude magnífica
Ser algo além de vento
E fazer mais que ventar?

Que quero eu do sol
Se não que seja sol
E que permaneça sol
Aquecendo e cumprindo suas funções únicas de sol?

Por que precisaria o sol
De ares de poeta
De postura ereta
De dizer algo encantador?

Pois digo o mesmo do ser
Que dizem ser humano
Em suma, o que lhe basta, é ser
E não especular.

A mim, já me contenta que o ser sequer seja
Mas que apenas suponha que é,
Pois, de tanto supor, acabando crendo
E sendo.

E, ainda mais, que seja apenas aquilo que lhe convém
De uma forma ou de outra
Que não se atrase em querer evoluir
Em querer “ser alguém”.

Peço, Oh Natureza, mãe minha
Que me faça sempre ser
Tudo aquilo que eu quiser
E nada além.

Crônica certa sobre incertezas

Era das primeiras manhãs de primavera, daquelas onde a brisa nasce serena e o sol se dispõe de maneira quase reverente, sem qualquer agressividade ou imponência, como se quisesse acalantar o coração de alguém. O início da manhã é como a grande abertura e introdução de um filme que, por melhor que venha a ser em seu decorrer, estará manchado, para bem ou para mal, por sua devastadora introdução. A introdução da vida, neste caso, é a infância, e a infância de Petit, que já há muito havia passado, deixava questões pendentes, como um Sino do Vento que, em seu gorjear, nada mais anuncia do que o vento chegando. Não preocupa, não arrisca. Apenas chama a atenção, quase imediatamente, para aquele novo evento.

A esta altura da vida, as convicções de outrora, aquelas contadas na infância, se dissolviam mais fortemente do que água e sal. Nada significavam, nada transmitiam: não havia em Petit qualquer certeza do que seria ou do que deveria ser. Seus totens haviam se desmanchado e tudo parecia fluir com uma certeza bela e duvidosa de que correria bem. Mas para onde, quando, com quem ou como, disso não havia rastros de convicção.

As certezas podem ser devastadoras. Ela podem criar agonia, podem gerar aflição tal que destruiria internamente o mais aplicado dos monges do Tibete. Por outro lado, as incertezas nunca geram expectativas, por consequência, nunca devastam por si próprias. Somos sempre devastados por certezas que, por elas mesmas, não suportam as incertezas convenientes da vida.

– O que vai ser depois?

– Quando é depois, minha querida?

– Ora, pois não se faça de desentendido. Já bem sabemos que haverá um fim, que um dia terá de ser. Não sabes que nada durará assim?

– Pois sei…

– Se então sabes, não te preocupa o que será depois?

-Quando é depois?

– Não te aguento, não te aguento! Ahh – suspirou com veemência – que seja, mas se algo vier a ocorrer de ruim, saberás que é sua culpa! Sua culpa!
De fato, a única questão que ocorria a Petit era essa. As incertezas da vida lhe anestesiaram, fizeram-lhe sequer se preocupar com o depois. Não sabia mais quando era, não tinha noção de cálculo de quando o depois viria. Poderia demorar tanto que ambos se esqueceriam do depois ou poderia ser tão breve que nem depois seria, seria agora. Então, quando seria depois? Este capitulo, sabemos, quem escreve não sou eu. Este capitulo está fadado para as incertezas, em suas máquinas de escrever antigas, escreverem quieta e lentamente, enquanto apreciam uma xícara de chá e olham tranquilas para a janela. Por que elas, as incertezas, já não se afligem mais com a certeza de nada.

As moeda minha vida

As moeda minha vida

Já fizeram muito por mim.

Me foram mais do que dinheiro,

Luz, conforto e afins.

 

As moeda minha vida

Lutaram todo dia

Pra que eu, nesse agonia

Não tivesse um triste fim.

 

As moeda minha vida

Não me pediram nada em troca

Ao invés disso, meu sossego

Ainda que eu tivesse meda

Eram essas moeda li

 

E, por fim, o meu pedido

Sincero e com esmero

Olhe bem com cuidado

De quem já foi levado

No colo doce e sincero

Dessa geração eu quero

Mais do que lero lero

As moeda minha vida

Não são figura zero

 

Com licença, doutores, ouçam-me com carinho: As moeda minha vida estão acordadas,

E, mesmo despedaçadas, querem lutar

Por aquilo que Deus já lhes tinham  dado:

Ser feliz, sem se justificar.

 

 

Desmanche

Partiu ao meio dia.

São Paulo, a esta altura, não passava de flashbacks. Encontros desmemoriados sobre aquilo que não aconteceu. O céu retratava sobre o cenário e devolvia sua opinião em tons de cinza.

A garota, loira, 1,70m, pernas longas de saia executiva, da cor do céu. Céu que refletia  sua opinião sobre São Paulo ao meio dia, São Paulo da garota loira de saia cinza executiva.

Sapato preto, Armani. A audiência era em 15 minutos, não havia tempo para o almoço. Pegou uma barra de cereais. Comeu-a no táxi e comeu também a barra.

-Meritíssimo, a guarda deve permanecer com o pai. A mãe não tem condições, como mostra o laudo psiquiátrico, de cuidar nem de si mesma, muito menos do filho.

-Protesto!, infere a defesa.

-Negado. Por não haver condições legais da mãe cuidar da criança, concedo a guarda compartilhada, sob os cuidados do pai e com visitas supervisionadas da mãe, uma vez por semana.

A mãe não se manifestou.

De volta, entra no mesmo táxi, rumo a sua casa.

-Como me saí?

-Como uma puta. Nem parece mãe. Vem aqui…

Repetiu o processo, deixou a barra de lado.

Sobre a eternidade

Efêmera é a morte, que nos mata uma vez só e se diz eterna.

Eterna é a paixão, que durou alguns dias e marcou uma existência.

Importante é o desprezível, pois ninguém te roubará aquilo que não se compra com ouro.

Em todos os nossos dias, buscamos explicações e resultados, com objetivos certos e com sentimentos convictos. Ora, Deus me livre da certeza e de todos os que não se arriscam!

Efêmera é a certeza, que sempre esteve certa e nunca se arriscou em errar.

Errado é o que dizem, por que não me compete. Compete a mim somente eu mesmo, e tudo que eu disse além disso é balela!

Impossível é crer que ainda me desacredito e que me limito a realizar o possível, obcecado pela razão.

Razão que não é de mim mesmo, e que me diz todo dia:

“Não contamos as rosas, pois elas são efêmeras.”

Efêmero sou eu mesmo, que mal cheguei e já penso em ir embora!