O filho pródigo

Sou um filho pródigo da depressão.

Visito-a, mesmo após um tempo distante, normalmente após capítulos de sofrimento, como o da narração bíblica. Sou pródigo por que esbanjo alegria, contentamento e motivação. Como toda fortuna, elas acabam e, como bom filho, retorno a casa sólida de tristeza e solidão. Não a nomeio, não a compreendo, apenas a reencontro esporadicamente como reflexo do turbilhão de sentimentos que me acomete. Venho para esta casa para pedir ajuda, como na narração bíblica. A diferença é o silêncio.

Nenhuma palavra sai.

Nenhum gesto se faz.

Nenhum grito ecoa.

Nada transpassa as paredes desta casa sólida.

Eu gostaria de viver no meio. No meio, há condições de se olhar para cima e para baixo com lucidez. Mas, justamente pelo contrário, transito sempre nos extremos, caindo de muito longe e levantando com saltos ornamentais. O problema é que dar saltos ornamentais é muito difícil e cair do alto doí muito. Uma hora precisamos parar de competir nas olimpíadas pois já não se consegue dar mais saltos. Espero que, nesse momento, também pare de cair de muito alto e viva no meio.

Não se conta como o filho pródigo agiu depois da volta, mas tenho certeza que ele partiu novamente, assim como eu parto. Sei ainda que se encheu de esperança e tentou novamente, mas que como bom filho pródigo, gastou tudo o que tinha e precisou voltar para a casa.

Assim vivemos, eu e o filho pródigo, cada um com sua casa, cada um com suas riquezas, gastando-as indiscriminadamente e, então, se exilando entre as paredes sólidas.

Hoje habito as paredes sólidas.

 

 

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XXI e meio

Acorda.

Mas acorda rápido, já é tarde, não te espreguiça demais

Pula da cama e toma teu café

Sem pão, puro

Agrotóxico.

 

Exala tua felicidade

Virtual, a real não

Interessa, mas rápido

Não tem tempo.

 

Corre que falta pouco e o ônibus

Não se atrasa,

Atrasou. E agora?

Eu atraso, mas eu nem

Tomei meu café,

Puro.

 

Puro medo, pura dúvida

Puro segredo, do sujo, do imundo

Que guardo, que vivo

Que não serve pra “Oi, quanto tempo”

“Que saudade de você”

“Venha cá mais vezes”.

 

Não venha, não veja,

Não viva, não sinta.

Não se permita, não se rebele,

Seja simplesmente vão.

 

Chega tarde, vá embora mais tarde ainda,

Durma mal, não descanse

Tome outro café pura raiva,

Pura tristeza, puro esgotamento

Físico e mental.

 

Vá a festas, divirta-se

Ou pelo menos finja,

Onde todos vão.

Chegue mais tarde, durma ainda menos

Tome outro café, puro

Vazio.

 

Vá a uma balada, não ouça nada

Não converse, não se aproxime

Não se entrelace, não se incomode

Não entenda, não goste.

Finja.

 

Chegue ainda mais tarde, mais tarde, tão tarde

Quanto puder.

Não durma, se atreva, tome

Uma garrafa de café e

Outra de antidepressivo.

 

Leve a vida que todos desejam e,

Por fim,

Morra, como todos morrem,

Sofra, como todos sofrem,

Em seu vazio.

 

Não seja mais um inconveniente pensador.

Vai-e-vem ou A aplicação da teoria do caos na vida do homem médio

Eu tenho comigo que não há nenhuma emoção eterna.

Não há nenhuma tristeza eterna, nenhuma felicidade eterna.

Nem mesmo as coisas palpáveis são eternas: já fui novo e hoje sou velho, e amanhã poderei ser novo de novo, dependendo da minha crença ou religião, ou até mesmo não ser nada. Já fui muito triste, e ando sorrindo, mas no dia de hoje me vejo no passado. Até mesmo o passado, que julgamos tão pessoal, racional e certo, é nada mais que memória, tão incorreto e manipulado quanto remédios para tristeza.

Muito me chateia não sentir mais determinadas coisas, vejam só, eu, há pouco tempo atrás, era extremamente certo e cheio de objetivos. Ora, isto facilitou minha vida, conquistas são nada mais do que insistências tão bestiais e irracionais que chegam aos extremos da condição. Conquistei carreira, conquistei conhecimento, conquistei pessoas. E as carrego, as pessoas, os contatos, os livros, para onde eu for, e isso me diz quem sou, mas já não sou o mesmo que as conquistou. Então, como posso mantê-las comigo em sinceridade de ser?

Quão eterno eu sou?

Nenhum pouco. Tanto quanto a tristeza, a felicidade, a velhice e a juventude, a pobreza, a riqueza, ou a mim mesmo, ou a quem já fui, ou meus pais e meu irmão, minha namorada e meus amigos. Nada eterno.

A única coisa que é eterna em seu paradoxo, pois ela mesma não se trata sobre eternidade, é a renovação. Tudo, o tempo todo, eternamente renovado. Até mesmo a renovação está sujeita a aleatoriedade da incerteza, da Teoria do Caos, do abismo de ignorância que é nossa existência, principalmente quando nos colocamos em certeza: eu não. Eu não mudo, eu não me altero, eu sou assim, duro, firme sólido.

Ora, se não mudas, então permanece no passado que, por sua vez, é mero fruto de sua memória, mentirosa memória, que te engana e te diz que não mudas. Te digo: mudas. O tempo todo, a todo segundo, mudas.

Alegrai-vos todos, pois, em tua mera ocasionalidade, és totalmente teu.

Nenhum sentimento é eterno. Nenhuma certeza é eterna. Nenhuma ignorância é eterna.

 

 

 

Ironia

Ahh, mais o que é que foi?!

Que tanto me olha

Sai pra lá que não te quero

Longe.

Olha, vê se não me irrita

Que eu te mato

A saudade, de uma vez só,

Sem nem avisar.

Cuidado, se não te tranco.

Numa mala,

E levo pra viajar.

Sai com essa cara daqui

Que to enjoada de te ver

Tão de vez em quando.

Não me chama…

Muito tarde.

Não insiste…

Tão pouco.

Permaneça a uma distancia

Cautelar, de pelo menos

Bem perto.

Era uma vez a falsidade,

Nos contos da atualidade

Sendo serva da verdade.

Monólogo do Salário Mínimo

Quanto custa?

Acordar, olhar pro sol, sorrir

Abrir a janela, vento entra e sai

Alegria sem fim

 

Quanto custa?

Café na mesa, que beleza

A certeza de um novo dia

 

Quanto custa?

Sair de casa sem peso na consciência

De que tá custando caro você estar ali

 

Quanto custa?

Saber que alguém, em algum lugar

Está disposto a te defender

Com unhas e dentes e reais

E com mais coisas banais

 

Quando custa?

 

Custa caro saber demais

Custa caro saber que é caro

Que o preto esperto é raro

 

Que a criança sequer desconfia

Mas o pai trabalha noite e dia

Sem ter um segundo de paz

Só pra chegar em casa e ouvir

 

“Papai, que bom que você chegou”

A alma se alegra

O sentido expressa

O pai sente demais.

 

Mas, me diga, meu irmão

Quanto custa?

Dizer que tudo isso é vida

Que é assim que deve ser

Que Deus deixou

Cada um no seu lugar

 

Será que custa dez por cento

Daquilo que se ganhou

Se ganhou com o intento de comprar o pão

O pão que o diabo amaçou

 

Quanto custa?

Acordar de um coma

Induzido pelo plim-plim

Se é só assim que chega, meu irmão

Reis- escravos da escolha

Que não nos foi dada

 

Custa o sorriso no rosto da tua mãe

Fazer aquilo que ela quer

Por que disseram pra ela que assim

Tu não vai sofrer demais

 

Ledo engano, sofrimento

Na boca do pobre sofrido

É viver submetido

Àquele rico metido

Que te olha de cima, convencido

De que ta fazendo demais

 

Na vida, tenho entendido

Que custa caro demais

Apenas viver mais um dia

Sem aquela agonia de saber pra onde vai

Sustentando toda essa gente escrota

Que não tem ideia

De quanto custa sua paz.

 

Ode à Alberto Caeiro

Que direi eu do vento
Se não que venta,
Ou se é frio ou quente
Forte ou fraco?

Por que precisa o vento,
Em sua ventitude magnífica
Ser algo além de vento
E fazer mais que ventar?

Que quero eu do sol
Se não que seja sol
E que permaneça sol
Aquecendo e cumprindo suas funções únicas de sol?

Por que precisaria o sol
De ares de poeta
De postura ereta
De dizer algo encantador?

Pois digo o mesmo do ser
Que dizem ser humano
Em suma, o que lhe basta, é ser
E não especular.

A mim, já me contenta que o ser sequer seja
Mas que apenas suponha que é,
Pois, de tanto supor, acabando crendo
E sendo.

E, ainda mais, que seja apenas aquilo que lhe convém
De uma forma ou de outra
Que não se atrase em querer evoluir
Em querer “ser alguém”.

Peço, Oh Natureza, mãe minha
Que me faça sempre ser
Tudo aquilo que eu quiser
E nada além.

Crônica certa sobre incertezas

Era das primeiras manhãs de primavera, daquelas onde a brisa nasce serena e o sol se dispõe de maneira quase reverente, sem qualquer agressividade ou imponência, como se quisesse acalantar o coração de alguém. O início da manhã é como a grande abertura e introdução de um filme que, por melhor que venha a ser em seu decorrer, estará manchado, para bem ou para mal, por sua devastadora introdução. A introdução da vida, neste caso, é a infância, e a infância de Petit, que já há muito havia passado, deixava questões pendentes, como um Sino do Vento que, em seu gorjear, nada mais anuncia do que o vento chegando. Não preocupa, não arrisca. Apenas chama a atenção, quase imediatamente, para aquele novo evento.

A esta altura da vida, as convicções de outrora, aquelas contadas na infância, se dissolviam mais fortemente do que água e sal. Nada significavam, nada transmitiam: não havia em Petit qualquer certeza do que seria ou do que deveria ser. Seus totens haviam se desmanchado e tudo parecia fluir com uma certeza bela e duvidosa de que correria bem. Mas para onde, quando, com quem ou como, disso não havia rastros de convicção.

As certezas podem ser devastadoras. Ela podem criar agonia, podem gerar aflição tal que destruiria internamente o mais aplicado dos monges do Tibete. Por outro lado, as incertezas nunca geram expectativas, por consequência, nunca devastam por si próprias. Somos sempre devastados por certezas que, por elas mesmas, não suportam as incertezas convenientes da vida.

– O que vai ser depois?

– Quando é depois, minha querida?

– Ora, pois não se faça de desentendido. Já bem sabemos que haverá um fim, que um dia terá de ser. Não sabes que nada durará assim?

– Pois sei…

– Se então sabes, não te preocupa o que será depois?

-Quando é depois?

– Não te aguento, não te aguento! Ahh – suspirou com veemência – que seja, mas se algo vier a ocorrer de ruim, saberás que é sua culpa! Sua culpa!
De fato, a única questão que ocorria a Petit era essa. As incertezas da vida lhe anestesiaram, fizeram-lhe sequer se preocupar com o depois. Não sabia mais quando era, não tinha noção de cálculo de quando o depois viria. Poderia demorar tanto que ambos se esqueceriam do depois ou poderia ser tão breve que nem depois seria, seria agora. Então, quando seria depois? Este capitulo, sabemos, quem escreve não sou eu. Este capitulo está fadado para as incertezas, em suas máquinas de escrever antigas, escreverem quieta e lentamente, enquanto apreciam uma xícara de chá e olham tranquilas para a janela. Por que elas, as incertezas, já não se afligem mais com a certeza de nada.